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Those Rooftop Nights

Those Rooftop Nights

Velhice

   Há uns dias tive que fazer uma reflexão para uma cadeira chamada Introdução à Psicologia do Envelhecimento, onde tinha "simplesmente" que dar a minha opinião sobre a velhice. Acabei mesmo por terminar o trabalho com uma lágrima ao canto do olho, provavelmente influenciada pelo facto de ter perdido a minha avó materna há apenas um mês. 

   No entanto, quero partilhar a minha opinião convosco, e estou curiosa acerca das vossas. 

 

   Não posso afirmar que sei o que é ser uma pessoa velha, ou sequer o que realmente é a velhice. Como em todos os casos, a experiência própria ajuda-nos sempre a ter noções, perceções e visões completamente diferentes acerca dos assuntos.

   No entanto, tenho a minha opinião construída vista de fora, e com contribuições não só teóricas mas maioritariamente quotidianas, tendo a sorte de estar rodeada por pessoas que sempre me mostraram e desmitificaram o que é “ser velho”.

   Com os meus avós e bisavó aprendi que, do ponto de vista deles, uma das piores coisas acerca da velhice é a perda da autonomia, muitas vezes consequência da crescente debilidade motora. Deixar de se poder fazer o que se quer e gosta, quando se quer e apetece começa a ser uma realidade difícil de sustentar. Atrelado a isto vem o pesadelo de se estar dependente de outra pessoa e, como eles sempre dizem, “não gosto nada de dar trabalho”. E a verdade, pude comprovar, é que não gostam mesmo. Ser velho, por vezes, é odiar ser velho. Tal como em todas as fases, é focarmo-nos maioritariamente nos aspetos negativos e não conseguir olhar para a magia que a idade oferece.

   Ser velho é sinónimo de mudança e perdas físicas, cognitivas e emocionais. É ver o cabelo tornar-se numa tonalidade grisalha associada a uma idade que sempre consideramos longínqua, sentir os dentes enfraquecer e ver a pele a ganhar vincos. É ver mais vezes o médico de família do que alguns amigos. É ter pavor da solidão e ir envelhecendo dentro da própria velhice, enquanto se tem noção que há muito mais tempo para trás do que para a frente.

   No fundo, é parar depois de muito andar, como se finalmente houvesse algum tempo para respirar e ter serenidade, mas como se por outro lado existisse um certo receio de ceder ao descanso.

   Tem-se tempo mas falta a energia. Os braços custam a levantar, as pernas já não andam com tanto engenho e as costas doem cada vez mais.

    Mas ao contrário do que às vezes parece, nem tudo é mau. Pelo contrário.

   Tal como Elaine Brody referiu no seu trabalho “On Being Very, Very Old: An Insider’s Perspective”, maioria dos idosos têm capacidade de tirar prazer de diferentes coisas, gostam de socializar e apreciam fazer várias atividades.

   Velhice também é sinónimo de sabedoria, de olhar para os mais novos e pensar “já passei por isso” com um olhar de compreensão e um sorriso nos lábios.

   Há uma especial capacidade de recordar os tempos antigos, sentar ao lado da família e contar histórias que realmente ensinam algo, transmitindo o que já passaram e que, muitas vezes, não se importariam nem um pouco de voltar a vivê-las.

   Velhice é sapiência. Deixar o que os outros pensam de lado, saber com menos ilusões o que esperar do mundo e das pessoas, e dar muito mais importância às pequenas coisas. Aproveitar todos os segundos que os filhos e netos têm para despender, ganhar o dobro da paciência, mas também o dobro da teimosia.

   É engraçado como as pessoas velhas muitas vezes acham que o mundo vai de mal a pior e que, no fundo, o tempo deles era o melhor. Mas não será isso um “problema” de todas as gerações?

   Tal como Jonathan Swift afirmou, “Toda a gente desejaria viver muito tempo, mas ninguém quereria ser velho”.

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